segunda-feira, 30 de outubro de 2023

 Morre-se um pouco quando alguém escolhe morrer pra nós. 

É um paradoxo, eu sei. mas verdade seja dita, a dor é como ter perdido um membro, um importante membro, porque o corpo te lembra, a todo momento, a falta que faz. 

Respirar deixa de ser voluntário e você sente, a cada inspiração,

 a f a l t a,

que, devagar, insiste em se fazer lembrada.

Morre-se um pouco quando alguém vai embora. quando escolhe ser apenas memória. 

Nem todas são boas, isso é fato. Mas fato  também é, que ate dos tro-peços sente saudade.

E dói. 

Como quando na infância ralava os joelhos e parecia que o mundo havia acabado naquele mertiolate ardido. 

E arde.

E quando pensa que sarou, eis que soltam as casquinhas e sangra tudo novamente.

Morre-se um pouco quando alguém escolhe ser saudade. 

Lembrança. Memória.

A falta nos lembra a todo tempo o tempo em que se fazia presente.

E presente era.

Morre-se l e n t a m e n t e, enquanto suspira lembrando o ser ausente. e é latente que o que sente não pode ser dito. Engolido. a seco. 

Rasga o peito e o esôfago e se questionado sobre membros faltantes, mente.

Ninguém vê. mas se morre um pouco sempre que lembra, e no passado volta, em fotografias rasgadas, remontadas sobre uma colcha velha.

A lágrima pinga, mancha, e escancara o luto de quem escolheu morrer pra gente.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

 Tirou os sapatos, calçou as pantufas e vestiu um moletom velho. Acendeu a luminária que fica no canto da sala, junto ao cigarro. Tragou a fumaça quente a fim de, talvez, aquecer o lado de dentro. 

Carece de se aconchegar vez ou outra, ouvir de si mesma que não está, mas, vai ficar tudo bem.

As lacunas deixadas outrora, por ora, nada preenche. 

O espaço deixado continua ali, e grita. Grita aos seus ouvidos a falta que ainda faz. Quem sabe assim se escuta, se acolhe.

Elizabeth, perdida em si mesma, não encontra a porta de saída. Não tem luminária que de conta de clarear o caminho. E dói.

Deixa doer. Arranca as casquinhas das feridas, joga mertiolate que é pra cicatrizar mais rápido, ou, ao menos, não infeccionar.

Mas ela é forte, e entre um cigarro e outro, abraçada por um moletom velho, espera o dia chegar. Porque ele sempre chega, e embora não se encontre o caminho da saída, traz o novo pelas frestas das janelas.

domingo, 2 de abril de 2023

Não sara nunca

“Essa ferida, meu bem, as vezes não sara nunca

Às vezes sara amanhã” 


Não, não sara! Elizabeth sabe bem que as feridas novas se somam às que já existiam e tornam-se cumulativas. 

Como fossem pontos de uma Mega-Sena que ao invés de prêmio, só faz doer.

Essa ferida não sara nunca, sinto decepcioná-los. Vocês todos que têm sempre um conselho na manga, como fossem receita de bolo.

Faz isso, assim, assado. Cru é que não pode ficar.

E Elizabeth nem gosta de cozinhar. Prefere as marmitas requentadas que dão menos trabalho, e na verdade ela não quer ter trabalho, gasto, desgasto. Já basta o que foi desgastado, devastado.

Mas essa ferida não sara nunca! Não tem mertiolate que dê conta.

Não tem dorflex capaz de aliviar. 

Não tem!

Essa ferida, não sara nunca! 

E nunca é tanto tempo…. É tempo demais pra um amor que insiste em pulsar, como fossem batimentos cardíacos daqueles que não têm pulso, mas bate. Bate e apanha. 

Apanha e machuca, e essa ferida não sara nunca!

Elizabeth sabe que se transforma, mas não sara. Ela sabe que fecha, mas não sara. 

Ela sabe que vez ou outra faz sangrar. Deficiência de coagulação, coitada. Deficiência de cicatrização. 

Essa ferida, meus caros, não sara nunca! 

Não tem conselho, nem mertiolate, capaz de estancar o sangue que escorre coração a fora.

Ela agradece o curativo, mas, essa ferida…essa, não sara nunca

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

É hora de jogar a chave fora

 A virada da chave aconteceu numa noite fria, chovia muito, e Elizabeth decidiu ir caminhando para a casa após o dia de trabalho. Entre as gotas da chuva que molhava seus cabelos e escorria por seu rosto, se misturavam algumas lágrimas que se arriscavam em saltar dos olhos. 

Se arriscavam porque, sabe-se, Elizabeth não é das que expressam emoções, mas as guarda, numa caixinha de madeira, debaixo da cama - e não tira nem pra faxinar a casa. 

Acontece que, entre lágrimas e chuva, Elizabeth virou a chave, da caixinha talvez (?) e libertou as emoções contidas embaixo da cama - tal qual o monstro da sua fantasia da infância. Acontece que apenas o monstro era ficção. 

Caixa aberta, já não tinha mais o que fazer se não olhar pra dentro dela e ver entre papeis velhos e gastos pelo tempo, toda emoção que guardara outrora. Haviam dores e feridas e escaras com casca, mas abertas, que poderiam, a qualquer momento, sangrar. E sangrou. 

E jorrou sangue e jorrou lágrima, como criança perdida da mãe no supermercado. Ou quando ralava os joelhos após um tombo de bicicleta. Ser abandonado dói. Sobretudo, no supermercado lotado. Bem como os joelhos ralados de outrora. 

A autopercepção de Elizabeth lhe custara caro, lhe custava calmaria, artigo de luxo naqueles tempos. Mas ela virou a chave e pode ver, por entre as dores dos papeis velhos, que ainda se habitava. E como é importante se perceber pertencente a seu corpo. E como é importante saber a hora de fechar a caixa de madeira e jogar a chave fora. Ainda que lhe custe a alma. 

Mas Elizabeth é corajosa o suficiente, já superara momentos piores, e, sob a água gelada da chuva de inverno, ela vira a chave e tranca a caixa. Não se pode mais abrir. 

Continua...

sábado, 5 de dezembro de 2020

Regeneração

O sentir de Elizabeth se regenera tão rápido quanto o rabo de uma lagartixa ferida. Parece uma comparação tosca, e talvez seja, mas assim é. 

Elizabeth se permite e se encanta, e isso é belo, louvável, eu diria.  Sente medo, mas o desejo de se conectar novamente ao que chamam de amor, fala mais alto ao coração - bem como diz a música. 

E se encanta... sorri para as fantasias e devaneios, que já lhe são íntimos. Convida-os para entrar, sentar à mesa e tomar um café, bater um papo. 

E tudo é lindo...

Suspira,...

 e já não está mais aqui, mas ali, ou quem sabe lá? Não se sabe...

Fato é que, o ideal é sempre lindo para Elizabeth - e sim, o ideal platônico. 

Elizabeth tem apresso pela metafísica, e transcende... tanto que torna o ideal quase tangível. 

É pena que talvez não seja, e se não for, que assim seja. tudo bem. 

Quem é que sabe? Um dia, talvez. 

Devanear lhe é confortável, embora sua preferência seja mesmo o palpável, o toque, o cheiro e todos os sentidos impressos.

Importa que a vida que entra por suas narinas a cada suspiro, e toda a fantasia que constrói é combustível pra esse coração Fênix incansável de se encantar. 

Elizabeth deu outro sorriso em meio às fantasias... convém esperar. 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

gavetas trancadas

Elizabeth decidiu abrir a gaveta que não abrira desde a partida do que ela acreditava ser amor.
Chaves em mãos, sentada no chão ao lado da cômoda de madeira... impossível não conter as lágrimas que insistentes desceram rosto abaixo. Enxuga o rosto com a manga do moletom azul marinho, gasto pelo tempo. 
Puxa a gaveta, e encara as verdades que moram no móvel antigo. 
Papéis, cartas, anotações, e as velas do aniversário. Aquela festinha simpática que ela havia organizado naquele mesmo ano, mal sabia ela que só restara as velas, e o cartaz que viera com elas, "feliz aniversário". 
As lembranças daquela noite invadiram o cômodo, e deitaram ao seu lado no tapete bordado. 
Resolveram lhe contar os detalhes da noite do aniversário, e todo amor que foi dedicado no pequeno evento. 
Em meio às memórias construídas, Elizabeth se permite sentir saudade do ontem que, ela sabe, não volta mais. 
Ainda não é hora de descartá-las, mas senti-las. 
Haja coragem pra seguir em frente de mãos dadas com as memórias e com as gavetas destrancadas. Há que se ter coragem. 
Elizabeth entende que chegará o momento de limpar as gavetas, e ocupá-las com outras coisas. Mas por hora, abri-la e encarar tudo o que ela traz, ainda que em meio às lágrimas, é um ato de coragem. 
Fecha a gaveta, não carece de chaves. Elas serão abertas logo menos. 

sábado, 17 de outubro de 2020

I miss you


Não, não foi isso que aprendi no inglês hoje, mas nem todos os idiomas dariam  conta de verbalizar sua ausência. 

É que me apeguei aos “ontens” construídos, e meu agora é preenchido de faltas.

Falta que ocupa todo espaço dentro de mim. Ainda agorinha lembrei sua veia saltada no pescoço, pulsando rápido, por pouco não te beijei, você tava aqui! eu podia jurar que estava. 

Ando tendo alucinações e nem é efeito do benzoadiazepínicos, é a demasiada falta que você faz.

É quase palpável. Tangível.  

Aprenderia outras línguas para te dizer, quem sabe em alemão, ou até línguas mortas...o tamanho do espaço que você deixou.

Mas, por ora, “I miss you” da conta da carga semântica. Porque não dizer “estou com saudade?” Porque estou com muita saudade. Está doendo. Dói q nem choro mais. Secou. 

Com quantas memórias te faço presente agora?

domingo, 2 de agosto de 2020

Feita de nó(s)

Feita de nó's, assim se encontra Elizabeth. Por mais que fale, e tenha falado ainda é só a ponta do iceberg, como dizem. Ou, melhor dizendo, é uma das pontas do emaranhado que ficou.
Metástase de nós.
Corpo dolorido, garganta fechada, musculatura rígida, como uma madeira maciça, não só seus músculos mas seus costumes. Talvez precise de uma massagem, sobretudo na alma.
Relaxar os sentidos em excesso.
Não tem chá calmante que dê jeito.
Por falar em nós, os pensamentos são um emaranhado só, desse "balaio de gato" que foram os últimos meses. Ou talvez os últimos trinta anos.
Haja disposição para colocar tudo no lugar. Desatar os nó(s), esticar o barbante até que arrebente e não reste mais nada, nem memória.
Há que se ter coragem em se permitir elos, laços e nós. Como sabiamente disse  O Principizinho "a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar". 
Elizabeth chora, tal qual Alice perdida no País das Maravilhas - inunda de si e acredita que, este seja o primeiro passo a desatar os nós do corpo, e os que os sentidos em excesso criaram chamando -os de "cativar".


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Sem medo

Elizabeth, corajosa  que só, sempre paga os preços da sua ausência de medo. Quando criança, subia em árvores, das mais altas, gostava de ver o mundo lá de cima. - visão panorâmica.
Da juventude para cá aprendeu a mergulhar, de cabeça como dizem. Às vezes é raso o rio, mas não tem problema, um arranhão ou outro faz parte.
Já aconteceu de se machucar muito, quebrar ossos, mas esse é o de menos ela pensa.
Não é fácil ser destemida. A coragem lhe custa caro.
É  que os machucados causados, por mais que cicatrizados, trazem marcas profundas. Os mais recentes carecem de um enxerto, um preenchimento das faltas, das lesões.
Mas não é por isso que ela deixa de mergulhar. Hora ou outra lá vai Elizabeth com sua roupa de banho, sua toalha no pescoço, e pronto. Nem óculos de mergulho ela usa, que é para não embaçar a visão. Gosta de enxergar tudo com nitidez. Volta com uma ferida ou outra, algumas são refeitas pois não havia cicatrizado ainda, mas, ela é corajosa.
"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar", ensinamento de sua leitura preferida. Por isso haja coragem de se machucar ao longo de tantos mergulhos.
Mas há que se permitir cativar, ser cativada, a coragem está em se mostrar vulnerável, humano, cativo.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Elizabeth aprendeu a voar e admirar voos outros, embora seu desejo fosse mesmo voar com. 
Hora ou outra esbarra suas asas em pássaros selvagens, sem habitat natural, o céu não é limite. 
Limites que ela mesma desconhece, já que por vezes voou tão alto que o ar lhe ficou rarefeito. Perdeu os sentidos, teto preto, despencou... asas quebradas, consertadas, coladas, marcadas. 
Verborrágica. Prolixa. 
Há que se deixar tudo claro, claro como água. cristalina. 
Como águia, como fênix talvez - a  metáfora lhe cai bem. 
Fato é  que entre voos, encontros e despedidas carece de ser casa,  casa de barro. como é mesmo o nome do pássaro? João, João de Barro. 
Carece de ser árvore, pés fincados ao chão. Constância. 
Mas o ar em movimento é sedutor e lhe convida ao voo. 
Se assim é, que assim seja. 
Voemos! 


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Elizabeth aprendeu a gostar do que os poetas chamam de solitude, dizem que é o estar em paz com a solidão. Esta que antes lhe doía o peito e trazia desespero... medo do escuro, da rua, do eco da casa vazia.
Como disse sabiamente Caio Fernando, “a gente acostuma!”.
Aparelho de som, herança de sua tia avó, ligado. Vassoura e rodo em mãos, é hora da faxina.
Aproveita a chuva que cai lá fora pra levar a poeira embora. 
Carece de ter as coisas em ordem pra trazer a sensação de controle de sua própria vida - características do Capricórnio no mapa astral. Controle traz estabilidade e chão firme, e ela precisa saber onde pisa (já se despedaçou muitas vezes por pisar falso em solo desconhecido). 
Controles da tv empareados milimetricamente calculado, sobre a mesinha de centro. 
Incenso queimando no parapeito da janela, as samambaias da decoração contrastando o verde forte com a madeira do chão de taco do apartamento. 
Tudo está em calma ali dentro, embora o som esteja alto. 
Casa em ordem, já pode receber visitas embora não tenha ninguém em mente pra convidar pra comer uma massa, tomar o vinho chileno que comprara com o último pagamento, e falar sobre astros, buraco negro do universo, ou o que passava na cabeça de Drummond quando escreveu “tinha uma pedra no meio do caminho”.
O que ninguém pode negar é que solitude combina com casa limpa e com a disposição de tudo dentro do apartamento.
Adaptar-se, tem sido confortável desde que fez as pazes com a solidão.
A gente acostuma. 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O tempo é agora

Elizabeth têm aprendido muito sobre tudo, deu-se um hiato para internalizar aprendizados e principalmente praticá-los.
O que ela não imaginava era que enquanto os dias passaram algumas de suas características permaneceram impressas. Somos um amontado de experiências e suas marcas e cicatrizes, essas permanecem ainda que as feridas se fecham.
O hiato passou e Elizabeth se percebe respirando, ufa! Foi só um susto! ou, mais um. E sabe também que muitos outros virão. Ela gosta dessas sacodidas da vida, ela precisa se sentir viva  vez ou outra e não somente no automático acordando cedo, trabalhando, pagando contas, se alimentando bem... Bem isso tudo é importante, mas precisa de mais. Carece de uma aventura ou outra pra estimular a produção de adrenalina. Saltar de paraquedas talvez. Ser vulnerável é uma aventura e tanto, mas após tanto tempo, Elizabeth opta por fortalecer os músculos – todos, o coração principalmente.
A prática hoje é correr, não é correr contra o tempo, mas a favor dele, fazer as pazes com ele. Tentar alcança-lo já que ele é tão rápido. e passa. e voa, como dizem.
Percebe-se que fortalecer os músculos não tem sido suficiente, há que se parar e silenciar se ouvir se aprender e entender o que esse senhor lhe ensinou durante o hiato que já é pretérito, mais que perfeito.
hora,
dia,
mês, ano e Elizabeth é a mesma na sua profundidade. Anseia por encontrar quem se encante por sua vulnerabilidade e poesia, e aceite, assim, viver  feliz para sempre.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Todas as cartas de amor são ridículas


Elizabeth, após meses trancada em seu apartamento escuro e por vezes bagunçado. Perdeu as contas de quantas garrafas de tinto cabernet souvignon tomou sozinha. A taças se espalharam pelo tapete da sala, em meio às bitucas de cigarros, porque também já cansara de limpar o cinzeiro.
Certo dia, resolveu abrir as curtinas, e pouco a pouco a luz do sol clareou a sala, cozinha, os quartos.
Retinas acostumadas com a claridade, decide limpar gavetas, chacoalhar tapetes, lavar as taças.
Daquelas faxinas que fazemos de calcinha e sutiã ouvindo músicas dos anos 70, dançando de vaçoura na mão.
Parece que além da luz do sol,  entrou também, alí naquele lugar, motivos para levantar do sofá e sacodir a poeira.
Elizabeth parece respirar ares que já havia esquecido.
As manhãs são mais vivas, os pássaros passam a ser notados, e os "bom dia" dos vizinhos de certo modo trazia sorrisos praquele coração solitário.
Elizabeth, após se recompor dos machucados da vida, decide por finalmente viver.
A vida chegou numa tarde de sábado, de mochila nas costas, óculos escuros e sorriso tímido.
A vida, assim como Elizabeth, gosta de dengos, carinhos, cerveja e vinho seco.
A vida  é passarinho solto que voa em busca de coisas que ela também estava procurando.
Elizabeth e vida se encontram.
Vida a liberta do apartamento apertado e lhe apresenta: vida, planos, risos, abraços, carinhos, e aqueles olhares que não dizem nada mas dizem tanto.
Elizabeth não gosta de falar de amor, mas é das que sente. Mergulha fundo, mesmo que o fundo seja raso e se assm for que seja.
Mas eis que O encontro a proporcionou companhia pra chamar de vida, pra dividir a vida, atenção, e aquele amor que ficou guardado pro momento certo. Mas a gente nunca sabe quando é momento certo.
Na dúvida, Elizabeth ama estar amando novamente.
Que seja leve! Doce! Que seja! Só seja! Enquanto tiver de ser.

 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Quando passa o rio



A vida é um rio de águas torrentes e impetuosas, pedregoso, com grandes quedas d'água, cachoeiras altas e curvas. E ele segue seu curso mesmo com todos os atributos mencionados.
Assim como o tic tac do relógio, ele não para. Nem nas curvas, tampouco quando vê a altura da próxima queda... ele segue, continua, enquanto o tempo passa. E este é atroz.
Atropela as pontes impostas, destroi, carrega o que tiver pelo caminho.
Nove meses, tempo necessário pro rio conseguir destruir qualquer obstáculo que ousar atravessar seu curso.
Não cabe julgá-lo.
Elizabeth se lança no rio, como quem espera uma cama elástica macia ao fundo.
O que ela não sabe é que ele possui pedras, galhos. E nele ela segue... Se machucando com os encontros e trombadas em tudo que encontra pelo caminho. Até enfim encontrar a calmaria de uma lagoa em um canto onde ela não sabe bem explicar geograficamente onde fica.
Com alguns arranhões, machucados e sangramentos, o rio para, para que Elizabeth possa se recompor.
Não se sabe quanto tempo demora para este feito. Um mês, ou nove talvez.
Importa que seja calmaria e traga-lhe um pouco de paz. Sem pedras, galhos e tempestades.
Boia seu corpo sobre a lagoa enquanto tudo passa.
Porque se o rio passa, as horas passam, o tempo passa, isso também há de passar.



Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio...
pois na segunda vez o rio já não é o mesmo,
nem tão pouco o homem!
...
Heráclito de Éfeso


sábado, 26 de maio de 2018

Dom Quixote


Muito prazer, me chamam de otário!
Disseram a Elizabeth na infância que ela possuía um cavalo branco. Elizabeth embora tivesse medo de cavalo, até tentou montar algumas vezes - sem êxito, lógico.
Cresceu pensando em nomeá-lo, mas nunca chegara a nenhum nome que coubesse naquele animal lindo, admirado, branco, com algumas manchas cinza no pêlo.
Sonhava montá-lo em puro pêlo e sair cavalgando sem rumo sentindo o vento dos moinhos bater no rosto de menina. O que ela não sabia, era que a menina Elizabeth continuaria morando dentro dela mesmo depois de madura.
Elizabeth, acende seu cigarro e repensa o nome que poderia ter tido seu bicho de estimação nunca montado - Dom Quixote! por amor às causas perdidas.
A ironia da donzela que cavalgou uma vida, em busca de uma outra donzela no mundo das ideias.
Platônica Elizabeth!
A amazona doce, com uma pitada de cinismo dos "amores herdados" ou não, sem donzela e Sancho Pança, com a péssima mania de confiar, de acreditar. Talvez este fosse seu pior defeito. (Embora não tenha, na infância, tido coragem e confiança necessária para montar seu bicho amigo.)
Cresceu amando causas perdidas, buscando uma justiça que hoje já nem sabe se realmente existe, têm um mundo dentro de si, que só ela e Platão entenderia.
Pobre Elizabeth! O mundo não é cor-de-rosa, embora você prefira lilás e azul, e sempre se vista de preto.
Um Quixote inventado num mundo de lutas diárias e verdadeiras.
Um tanto quanto esquisito e verossímil. Um degradê de histórias em Pastiche onde ela mesma se perde entre verdades inventadas.
Moinhos de ventos fortes, tufões, furacões dentro e fora, que sopram verdades revividas e reinventadas em sua cara.
Por amor às causas perdidas Elizabeth é um pastiche de Dom Quixote, onde o Sancho Pança ficou em mil novecentos e bolinhas e ela seguiu sozinha.
Cavalgando como amazona em imaginações coloridas por seus lápis-de-cor, já que o mundo real é cinza e vazio.
Traga os cigarros, engole o choro junto à fumaça, força de cavaleiro, coração de menina esperando a próxima história a ser re-vivida, para então ser reinventada, onde ela possa se reinventar também, mas sempre por amor às causas perdidas!

Muito prazer!
peixe fora d'água, borboletas no aquário...Muito prazer, meu nome é otário!

quarta-feira, 23 de maio de 2018

(a) Ocaso

Pôr-do-sol Boa Esperança MG

Hoje eu acordei e o dia tava com gosto de sábado, de verão, desses que a gente acorda cedo e ja veste a roupa de banho porque vai ter piscina.
Não sei porque, pois ainda debaixo de três cobertores faz frio.
Mas lá fora o céu ta azul, sem nenhuma nuvem.
A energia que me envolve é a mesma da infância, dos sábados no clube com os primos.
Hoje eu acordei e parecia sábado, talvez seja porque é meu dia preferido da semana.
É o dia em que abro as janelas e...uffa, posso respirar. Profundo e em paz sem as idas e vindas que a semana exige.
Hoje eu acordei e parecia sábado...
Têm sido sábado todos os dias desde que "o acaso" fez os ocasos do outono ficarem mais bonitos.
A capital fica pertinho do interior e Boa Esperança renova as esperanças de ser sábado todos os dias.
Hoje eu acordei e parecia sábado, embora não fosse.
Mas aqui dentro é!

domingo, 13 de maio de 2018

Sol-i-dão




    Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo[...] Poema 

Elizabeth tá bem crescida, todos dizem. Mas o que não sabem é que em todo adulto mora uma criança. Não! sem essa teoria de Petter Pan... é a criança, o menino ou a menina que mora dentro de todos nós crescidos.
Meninos e meninas que às vezes têm medo do pesadelo, tem medo do peso, do fardo da vida adulta. E as lembranças do passado, de quando íamos ao super mercado e a sacola menos pesada era a que nos davam pra carregar.
Depois de crescido você se vira com as sacolas do mercado. Pouco importa se seus braços dão conta de carregá-las.
Faz mais uma viagem - duas, três, "se vira" mas dê conta do recado. Eles dizem.
Mas ninguém conta que recado é esse.
Elizabeth se pergunta todo o tempo se o recado são as sacolas ou é a própria vida mesmo. Seus afetos, suas histórias - sua história, que pesada ou leve está sobre seus ombros. Carregue! Eles dizem.
A lembrança da beleza do tempo que aconteceu há minutos atrás, não se sabe se fere ou se faz sorrir. Elizabeth sente os dois! Elizabeth sente demasiadamente tudo. Seja o peso das sacolas do  supermercado, seja os des-afetos, seja da própria história, que hora ou outra resolve pesar sobre os ombros.
E a beleza dos minutos atrás faz chover. Umedece o lado de dentro e de fora. Tem gosto de soro sabe? Meio salgado, meio doce.
Mas adulto não liga com essas coisas. Pega a toalha se seca, grita dentro do travesseiro, por que adulto não reclama abrigo.
Adulto se abriga.
Elizabeth se vê só, acompanhada de si própria e essa companhia precisa ser leve, morna e ingenua e de forma alguma pode ficar no caminho
Se tem!
Se tenha, se possua!
Seque-se da tempestade que te assola, e em meio ao escuro da madrugada, entre cigarros, e contagem de estrelas da sacada do quarto - com o maço vazio agradece o dia que chega.
Porque a noite embora escura e fria, tem hora exata pra se aquecer novamente. Porque o sol sempre chega.
Ilumina a casa, seca resquícios da chuva e nos faz enxergar a beleza das coisas que aconteceram há minutos atrás.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Flore-ser



Elizabeth aprendeu que não se cura no lugar onde se feriu.
Há que sair da zona de des-conforto, subir o mais alto que puder, e enxergar a vida lá de cima. Como expectadora, assistindo de modo panorâmico tudo o que se passa do lado de dentro.
Há quem poda a planta antes de tempo, e ela morre coitada. Não entendem que para tudo há o seu tempo.
Há quem é chuva que rega. Há quem é luz da fotossíntese.
Há quem emana tudo isso ao mesmo tempo.
Sorriso, raio de sol que ilumina a/o univer(o) sidade.
Incendeia!
Recarrega baterias alheias, e cuida das flores dos jardins vizinhos.
Jardineira! "Pendura a pedra e se protege, se cuida."
Um paieiro, um suco, refri, uma conversa, ouvido, ombro...
Sorrisos!
Jardineira cuida das plantas sem notar. Mas rega.
Traz o necessário. E traz o sol, ainda que seja noite, dentro ou fora de Elizabeth.
Engrenagens funcionando.
O brotinho começa o processo de virar flor.
É hora de flore-ser!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Dual





Apegada à números pares, era tudo dual em sua vida - quando não demasiado.
Na sua sala eram duas poltronas, em seu corredor dois tapetes e também na beirada de sua cama. Quatro travesseiros...dois quartos, havia o de visitas, mas estas nunca apareciam. Mas ela sempre preparava, para caso um dia, acontecesse o inesperado.
Duas toalhas cinzas penduradas no box do banheiro, uma estava para secar, a outra esperava ser umedecida. Dois jogos de toalhas de rosto, dois chinelos na beirada do box, dois shampoos, dois sabonetes, e na pia, duas escovas de dentes.
Não percebera todos esses pares no apartamento, talvez porque ela fosse singular e não plural. Porque ela fosse ímpar e não par. Aqui matemática e gramática normativa dão as mãos, e é o único par que possa trazer significado ao texto.
Porque ele ta vazio, assim como o apartamento.
Na cozinha, dois pratos na pia: um está esperando ser lavado, e outro esperando ser utilizado. O macarrão de ontem grudou e já não da mais pra comer. Lixeira tem uma só. Não carece de duas.
Na geladeira dois litrões gelando, na adega duas garrafas de um litro de vinho tinto seco. Sob a mesa duas taças, uma está suja do vinho da noite anterior em que bebera sozinha.
Dois cinzeiros sob a mesinha de centro da sala, apenas uma bituca de cigarro ainda soltando sua última fumaça - ou último suspiro.
Mora sozinha, mas coragem ela tem por duas, por três, por quatro. Se joga, mergulha fundo em taças de vinho ou em corações rasos, não importa.
O vinho é seco, o café é forte sem açúcar, e chocolates amargos dentro da bomboniere sob o balcão que separa a cozinha da sala.
À meia luz todos os pares somem, e o que fica é a unidade de cada utensilio.
Acende um cigarro, sentada em uma das poltronas, toma uma garrafa de seu vinho tinto seco - que é pra tingir de vermelho o interior, que assim como as toalhas e as paredes são cinzas. (e ela é Fênix, disseram)
Agora são duas bitucas no cinzeiro.
No mais, à meia luz não tem plural, só singular. Não tem pretérito mais que perfeito, mas imperfeito... tampouco futuro do pretérito.  À meia luz, singular e ímpar dão as mãos para lhe ser companhia junto à taça de vinho.
No banheiro, segue as toalhas e os chinelos e as escovas...mas à meia luz eles nem fazem diferença.
De "pileque", o banho vira a melhor opção do singular ímpar, presente.(!) Aqui carregado de outra semântica - mas sempre gramática - normativa ou funcional. Os números nunca fizeram diferença mesmo. Mas o presente sim!
O presente é indicativo e reafirma que não há vocativo, tampouco aposto ou subordinação do sujeito.
Bom, algumas regras não mudam, mas nós somos passíveis de transformação...então, mais um vinho pra fechar com par.
Fato é que aqui gramática e matemática deram as mãos, não para serem um casal - longe disso, mas pra reafirmar a solidão dos números ou dos vocábulos/sentença.
Esta já foi dada: serás sempre ímpar e singular!
Não se sabe ainda se isso é bom ou ruim. O tempo dirá!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

efêmero


Elizabeth, sagaz que só, inteligente, já lera muitos livros, muitos teóricos...
Percebeu que teoria nenhuma foi capaz de proporcioná-la entender a própria vida, ou analisar a solidão do apartamento à meia luz.
Ela já não sabia se era dia ou noite, perdeu as contas de quantos dias estava trancada ali dentro. Nem é boa com números mesmo, não faz questão de contá-los.
Conhecera à custa da própria carne o que eles chamam de liquidez...
Viu seus músculos e suas forças se esvaírem como água que escorre pelo ralo, ou como a enxurrada de chuva forte.
Viu suas relações débeis indo embora como um barquinho de papel que é colocado sob o leito de um rio furioso.
Efêmero... tudo era efêmero, mas Elizabeth é uma estaca fincada em solo firme, que vendaval nenhum leva.
Por isso ela vê tanta coisa sendo levada. Elizabeth fica.
O que tem de concreto são as paredes do apartamento, no centro da cidade, decorado por ela. A personalidade dela está impregnada em cada detalhe... e é nisso que ela se apega.
Tolice pensar que se trata de uma mulher fraca. Há que se ter muita força para ver tanta coisa que um dia lhe foi importante ir embora com a enxurrada.
Sentada em seu sofá, viu a liquidez, que Bauman já havia falado, cicatrizado em sua pele.
A marca estava lá. Única coisa que não lhe fora tirado.
Outras tempestades virão, e levarão de si outras coisas que lhe são importantes.
Importa que esteja fixa em solo firme.
A liquidez pode chegar, pode marcar, mas não pode levá-la.
Chamam isso de evolução, mas  ela prefere o caminho inverso se assim o for.
De efêmero já basta a vida!