terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Viagem

Alice voltou de viagem tão cansada que parecia carregar o peso do mundo nas costas. Não era só as malas que pesavam...
Nos ombros, as marcas da tira de uma das bolsas pesadas que carregara -  mas bem poderia ser marcas do mundo que conhecera. Era também elas.
Não se volta de uma viagem sem um mundo novo dentro de si, e ela, bem... tinha outros mundos dentro agora - porém, estes também lhe pesara.
Alice tinha mania de carregar bagagem desnecessária. (sonhava em viajar apenas com uma mochila nas costas.)
Mas, metódica que só... blusas de frio, roupas de calor, pra chuva, pra neve, pra montanha, pra praia; tinha tudo ali caso precisasse - bolsinha com remédios, barrinha de cereal, chocolate, balas...
Na verdade, as malas preparadas com todo tipo de roupa dava a sensação, de que ela estava paramentada, pronta pra tudo.
Fato é que as marcas continuaram lá, dias a fio. Não tinha relaxante muscular que as tirasse.
Alice tinha outro hábito, não largava a bagagem por nada nesse mundo. Não tinha terapeuta freudiano capaz deste feito.
Sonhava se desfazer delas, mas já estava longe demais na estrada pra voltar e deixar algumas bolsas no caminho.
Carece de ter coragem!
Coragem pra voltar, deixar o peso dos fardos e poder desfrutar de um sofá confortável numa sala, pós viagem, e descansar a coluna - ou - o coração.
Detalhes à parte, Alice entra em seu apartamento, liga seu Smartphone e entre as fotografias revive as memórias da última viagem. Sente o cheiro, sorri pra uma das fotos.
Saudade tem gosto, tem cheiro e tem nome. Mas só cabem nas memórias dela.
Talvez ela revele uma das fotos e coloque num porta retratos na sala, ou, guarde na caixinha que fica encima do armário.
Fato é que com ou sem fotografias, modernizadas ou clássicas reveladas em papel de foto, ela estava fadada à boa memória para sempre. Jamais esqueceria tudo o que viu.
Hoje ela prepara outras bolsas. Mais uma viagem se aproxima, e e ela não quer ser pega de surpresa.
As bagagens seguem preparadas, e Alice também.


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

desconforto



Elizabeth se trancou dentro da zona de des-conforto, e, sozinha ali, tenta resgatar o restinho que sobrou dela mesma.
Aquele apartamento pequeno, de paredes cinza, onde já tomou muitos vinhos e cafés, é sua única companhia e testemunha. Uma pena as paredes não falarem...
Ou não...
Elizabeth gosta do silêncio.
Uma pena seu silêncio dizer tanto, pedir tanto, expressar tanto.
É tanto tanto que não cabe no apartamento. Não cabe na cidade. Não cabe no país... definitivamente não cabe.
O copo ta meio cheio ou meio vazio? O copo transborda. Molha o tapete indiano da sala, aquele que ela herdou da tia.
Mancha que não sai mais. Não tem produto de limpeza capaz de limpar, o tapete e suas memórias.
Essas, que as paredes testemunham silenciosamente.
Mas tem sempre um espelho na parede do corredor que dá pro quarto lhe apontando suas falhas e acertos e vivências e memórias. Tira o espelho dali. Bota um quadro. Aquele que sua prima pintou, te deu, e você deixou encostado num canto da casa.
Quebrou um jarro que ficava na mesinha de canto da sala, junta os cacos, joga no lixo. Mas dentro de uma caixa de papelão que é pra ninguém se machucar - mais.
Na despensa não tem vinho que lhe sirva de companhia. Na TV nada lhe apetece.
Talvez aquele livro que ensaia pra ler há um ano... Tédio. A zona de des-conforto é entediante.
O silêncio ensurdece e tudo que Elizabet precisava é de alguém que estancasse o sangue que escorre, ou a água que segue transbordando do co(r)po.
Carece de organizar essa bagunça. Mas nem ta tão bagunçado assim, vai.
É só uma mancha no tapete e alguma poeira que a faxineira fez questão de empurrar pra debaixo dele.
Tira o tapete e e a alma e pendura no varal pra secar. Pra estancar.
Limpa a mesinha da sala, ainda que ela permaneça vazia.
Organiza os armários da cozinha, procura com o que se ocupar.
Escreve meia dúzia de poemas que nunca serão lidos.
Trague todos os cigarros que puder. Trague paz, ainda que transborde de tanto que tanto.
Até que o quadro não ficou ruim, e o espelho...bem, quem precisa de espelho pra conhecer suas mazelas não é mesmo?
Depois que secar e estancar, volta o tapete pra sala porque ele já é parte dela – não se sabe se da sala ou de Elizabeth.
Liga o radinho à pilha que fica na cozinha pra ouvir outras vozes, hora ou outra.
Deita no sofá da sala e tira aquele cochilo de milênios.
Se abraça. Se escuta. Se acolhe.  Na hora certa o copo para de transbordar e a casa volta pra zona de conforto.

sábado, 14 de outubro de 2017

Intertexto


Saul frisou que havia se acostumado, não se sabe se com a solidão do quarto pequeno, ou com a tristeza. Quem sabe os dois?
Fato é que nos moldamos às realidades.
Uma vez aprendi nas aulas de biologia que o ser humano "se adapta ao meio". Seja frio extremo, calor extremo, falta d'água, abundância dela... a gente acostuma.
A gente acostuma... a dor do luto nunca passa, mas a gente acostuma. A gente acostuma com ausência, com solidão, com o vazio do quarto, com a nossa única e verdadeira companhia.
A gente se acostuma com o café quente, com a chuva que cai la fora, com o clima seco, com as folhas ao chão, depois com as árvores floridas...a gente acostuma com as estações da vida.
A gente se acostuma ao amor
e a falta dele.
Não há problema em se acostumar. Seria o costume/hábito nossa maneira de se proteger da não-zona de conforto?
Talvez.
Sair do quarto escuro e enfrentar a luz do dia, o sol, depois de estar adaptada seja la ao que for, arde as vistas, ofusca os olhos, e carece mesmo de proteção.
Levo as mãos ao rosto a fim de tapar os raios solares que invadem sem nem pedir permissão.
Mas a gente acostuma.
Se expõe ao sol um pouco a cada dia pela manhã, e acostuma também com ele.
Que bom que a gente acostuma! Menos um motivo pra sofrer não é mesmo?
Acostumar é aceitar as coisas como são já que não se pode mudá-las.
Me acostumei.
Acostumei com a minha presença, com as ausências, com a solidão que me faz companhia, com a tristeza... a gente acostuma!
Saul e eu poderíamos sentar qualquer dia em um café, acender um cigarro pra falarmos sobre nossos costumes, sobre Raul e seus costumes também.
Elizabeth é metódica, e convive bem com seus costumes.
"Não é triste? perguntou.
Saul sorriu forte: a gente acostuma."
Caio Fernando Abreu Aqueles Dois 

domingo, 20 de agosto de 2017

demasiado


Sabe quando coloca um litro de algum líquido dentro de um recipiente que cabe 200ml?
Essa é Elizabeth.
Um recipiente pequeno que não suporta seu tanto.
Elizabeth é pequena demais pra se caber, excede.
Ela é em excesso tudo.
Humana demais.
Amor demais.
Afeto demais.
Carente demais.
Carece de atenção demais. De presença demais pra preencher seu tudo.
As lacunas também excedem.
Tudo é demasiado
Ela não se aguenta
É pesado demais
Tem líquido demais no pote, carece de esvaziar mas não tem saída só entrada
Carece de chorar, mas não chora
Enche, transborda, segue transbordando
Carece de ajuda pra dividir líquidos e lágrimas mas todos estão cheios demais
Fartos demais de Elizabeth
Fardos demais de Elizabeth
Redundante em demasia
Carece de espaços maiores, corações maiores, abrigos maiores, atenções genuínas e maiores
Se venta é tufão
Se chove é tempestade
Se ama é shakespeareano
Se sofre é Édipo
Carece de dilatar espaços
Carece de se caber, de se conter, de ter paz
Paz em demasia


sexta-feira, 23 de junho de 2017

abraçar-se

Numa dessas conversas de bar, acompanhada por cerveja gelada, Elizabeth ouviu: "abraça teu aquário."
Elizabeth gosta de objetos de decoração e o aquário na mesa de canto da sala lhe passava despercebido. Alimentava o peixe betta duas vezes ao dia apenas para se sentir útil naquele apartamento vazio.
Mas o aquário...bem, nunca tinha refletido sobre ele.
Chegou em casa pós happy hour, que havia se estendido por toda a noite e madrugada a fio, tirou o sapato que lhe apertava os dedos, ligou a ducha no mais quente que sua pele pudesse aguentar, lavou a alma, de modo que suas lágrimas se misturaram em meio à água quente que descia pela cabeça. Não era hora de lavar os cabelos, mas também não era hora de tanta coisa que estava acontecendo que não se importou se no dia seguinte ganharia de presente um resfriado por dormir com os cabelos molhados.
Elizabeth gosta dessas implicâncias sentimentais, e, debaixo do chuveiro quente refletia a utilidade do aquário na sala.
Pessoas sozinhas geralmente possuem gatos, ou cachorros pequenos que lhes servem de companhia. Mas, como disse sabiamente Nietzche "não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia"; a quem essas pessoas estão enganando? Pensava.
A quem eu penso que estou enganando? Se perguntou.
Passou a mão no sabonete líquido na beirada do box do banheiro, massageava seu corpo como quem esperava um carinho, um afago, e as lágrimas teimaram em continuar caindo e se misturando à água quente. A temperatura da água também era proposital, precisava se sentir acolhida em meio ao caos que aquela conversa de boteco havia lhe colocado.
Mas o aquário, bem, ele é casa né? Ele é a moradia do betta. E o betta? Não lhe ouvia, não lhe entendia, estava ali só para que Elizabeth tivesse uma utilidade duas vezes ao dia.
O betta, para existir precisava do aquário, mas este existe por si só. Não carece do betta pra ser aquário, ele só é.
E a voz do bar continuava: "abraça teu aquário."
Exista Elizabeth! Se baste. Se envolva com água quente ou fria. Não dependa do betta para existir e ser.
Seja. Pra você, seja!
Percebeu que havia passado uma hora debaixo da ducha quente. Desligou o chuveiro, se envolveu numa toalha macia, pôs-se a caminhar pela casa até o quarto onde vestiu a camiseta de dormir.
Viciada em cafeína, decidiu por fazer um café às 3 da manhã, acendeu seu último cigarro, já que havia fumado durante toda a noite no bar.
Sentou-se no sofá novo da sala como quem precisa de um abraço, e abraçada pelo sofá, acolhida pela xícara de café quente, ousou abraçar seu aquário.
Aceitou o vazio do apartamento, voltou seus olhos pra si, e viu que  dentro dela havia um oceano inteiro habitado por muitas espécies, (não somente o betta da sala.)
O mundo era bem maior que o apartamento com um sofá novo, um betta esperando por alimento e um aquário de enfeite.
Abraçou teu oceano - nada pacífico, diga-se de passagem,- e dormiu aquecida por tudo que trazia dentro de si.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Poeminha de Segunda


Figuras de Linguagem
Poesia
Poes-ia
Não foi
permanece
Varia
endurece
Tem sede
Tem fome
não se sabe de quê
Tem rima
Tem prosa
Tem verso
Inteira
do avesso
Alegria
Pros vizinhos
de dentro e de fora
Completa
não cede
Resiste
Parece poema
do Drummond,
Clarice,
Pessoa,
Caio,
É o cânone da literatura todo

Poes-ia
Não foi
Sorria!

(por gentileza, sorria?!)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Produzindo

Somos máquinas
Produza
Zona de conforto? Oi?
Esqueça
Esqueça sua história e suas limitações
Produza
Fulano conseguiu você também consegue
Meritocracia
Estamos cansados
Produz(indo)
Somos máquinas
Aplicativos
Redes sociais
Produza
Arte?
Não. Ciência. Coisas que nos serão úteis
Mas arte é a expressão do amor
Amor?
Ficou com seus avós
Vocês não precisam
Produza
Se esqueça
Se anule
Se dane
Que se dane você
Produza
Não seja fraco
Beltrano conseguiu você também consegue
Prod-uz(s)a
Usa
Use
Pessoas e objetos e ciência e aplicativos
Confunda tudo
Se perca
Se anule
Anule
Se dane
Produza
Desperte a tempo
Ouse
Mude
A rota, a perspectiva
Mantenha o resquício da essência que resta
Desperte
Toque
Pessoas
Não o touch screen
Produza amor.